
Olhando o infinito, esse céu nublado, quase escuro. Percebo que em toda minha vida, não soube o que era ter medo, que era sofrer por algo, e, no entanto agora sofria. Sem mamãe tudo é muito difícil, mas sem James, me sinto sem chão, sem ar. Não tem como continuar minha vida, e com essa tarde fria, sem sol, esses trovões tão distantes, parecem mais os Deuses, bravos condenando as trevas, os mal sem almas.Olhei mais uma vez ao céu, já começava a cair os primeiros pingos de água na terra seca. Logo vem o cheiro de terra molhada. Ah como é bom esse cheiro! Fecho os olhos, meus pés agora bate em poças de águas, que escorrem na estrada de chão. Ouço mamãe gritando “Rúbia! Rúbia sai dessa água”. Juntava com as mãos meu vestido todo respingado de lama. De repente bato em algo que me traz de volta a realidade. Sinto uma mão forte segurando meu braço. Era a professora Miriam, que passava o tempo todo me observando. Perguntei sem graça, que dia era do mês? Ela responde com ares de pouca amizade, “que não importava”. “Que para mim era melhor esquecer o passado”. Saí correndo em disparada, sentindo-me a pior pessoa do mundo,Como pode eu tentar fugir? Essa pergunta vem na minha mente como um martelo a me condenar por algo que fiz de tão grave. Na verdade é isso mesmo. Minha fuga. Nunca deveria ter fugido de meus pais pra poder tentar uma vida ao lado de James, mas o amor muitas vezes é como uma faca, que vai cravando no peito, provocando dores em suportáveis, machucando, nos tornando perturbados até nos levar as piores loucurasHoje, depois de vários meses, sei que errei. Que devia ter seguido os conselhos de James, mas, o amor, o ciúme, o medo de perder foram tornando as coisas mais difíceis para mim. O tempo foi passando, e nada era como antes, ele se sentia triste, sem motivação.Ficávamos horas no MSN sem saber no que falar. Sabia que ele me amava muito, por muitas vezes tentei terminar e ele brigava, chorava, muitas vezes até ficava bravo, dizendo que fez minha vontade, enquanto ele não teve nada que desejava, e eu sempre continuava cobrando mais carinho, presença, mais amor e no final de cada briga, nos terminávamos fazendo amor.Não vivo mais a realidade, meus dias se tornaram um pesadelo, o passado, ele vem e vai como um carrasco mostrando meus erros. As noites são longas e frias, passo a maior parte delas revivendo os primeiros momentos. Só hoje sei que eu não tinha o direito de ter alguém, ainda mais sabendo como eram meus pais. Minha mãe passava o tempo todo trancada num quarto, uma hora perdida em suas leituras, outra hora dormindo. Queria eu fazer parte desse mundo e sentir sua proteção, mas, sabia que nunca poderia contar com ela pra nada. Papai! O comparo com um homem do tempo das cavernas, que não enxergava um palmo diante de seu nariz. Ele impunha as leis de nossa casa e ai de quem passasse por cima delas. “Filha minha não namora nova”, “filha minha não sai sozinha.” É como se eu fosse uma criança eterna que precisava ser guiada pela vida. Oh! Eu já não agüentava mais aquela situação.Conheci James com 14 anos, e há quase três anos estávamos na net. Sonhava com o momento de vê-lo diante de mim, de poder abraçar e beijar. Eu nunca senti o calor de alguém. E não resistindo mais todos meus desejos, resolvi que deveria lutar.Sei que só assim poderia viver nosso amor. Mas, mamãe, com aquele problema de coração, não resistindo minha fuga, foi parar num hospital e acabou por falecer.Nem cheguei a ver James, e vim parar nesse colégio no estado do rio, colégio que muitas vezes meu pai, que por qualquer deslize me ameaçava mandar.Os dias passam lento, conto horas e minutos até o momento de poder sair e ir ao encontro dele. James me fez essa promessa, que se eu não conseguisse chegar ao nosso encontro, ele ia esperar a vida toda por mim. Conto com essa certeza, que em breve, terei idade o suficiente pra ser dona de mim, e poder ir ao encontro dele. Mas hoje, não sei se é esse tempo abafado, esse frio, que me faz sentir mais falta de James, e de mamãe do meu lado, não sei se vou conseguir suportar essa ausência.Perdida em meus pensamentos, ouço a voz da professora Miriam chamando por mim. Falava alto. Ah! Como eu odiava isso, mas, hoje ela parece mais eufórica. Gritava meu nome alto e dizia que eu tinha visita. No momento eu nem conseguia me mover do lugar, um pouco surpresa por nunca ter visitas. Mas, ela grita mais alto. “Anda Rúbia, é seu pai e um jovem de olhos verde”. Eu não acreditava no que estava ouvindo, tremi toda, levantei de pernas bambas, coração quase saindo pela boca. Fui em direção à sala de visitas, e parecia mentira o que meus olhos viam. Papai e James na minha frente.Com a ausência minha e de mamãe, papai refletiu melhor sobre tudo e acabou entrando em meu logof, descobriu toda minha vida no mundo virtual e resolveu procurar e ouvir James e juntos vieram me buscar. E juntos vivemos felizes para sempre. Paula Rúbia Prado

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